Oi, meu
amor(?). Sabe o que eu acho esquisito hoje em dia? As pessoas (me incluindo no
caso) se preocupam mais em entender o amor do que senti-lo.
Como escrever
uma carta de amor? Devo começar com: “meu amor”, “queridíssimo Ivan”, ou “meu
bolo meigo coisa mais gorda e linda do universo”? Ainda bem que cê já ta
acostumado comigo assim: toda indecisa e manhosa, né mô?
Estive
pensando e conclui que cê é um canalha dos grandes. Sabe por quê? Acho muito do
feio me tirar as palavras como você faz, ó. Acha que tens direito de me deixar
assim: muda e com cara de boba? Eu fico feito tola durante horas e horas
pensando em como dizer, com quais palavras, onde colocar as vírgulas, os
pontos, as exclamações. Mas isso tudo é só pra que cê entenda tudo direitinho,
com todas as letras, os significados e o valor que o meu “eu te amo” tem. Aí ó, e no final acabo escrevendo apenas
sobre como escrevi. Prossigamos, porque você já me aguentou 11 meses, mais um
texto desconexo e viajado é moleza.
Meu denginho,
Estamos
prestes a comemorarmos um ano juntos. Um ano de amizade. Doze meses de
cumplicidade. Trezentos e sessenta e cinco dias de amor. Sabe o que é isso? Nem
0,03% (3 escolhido por motivos óbvios de amor e destino) do que ainda temos
pela frente.
E ó, temos
que deixar cada pedacinho de lembrança bem arquivado, porque não quero perder
nada do que fez parte da melhor época da minha vida. Sei lá eu se deus existe,
sei lá eu se eu existo. Mas se tem uma coisa que eu passei a acreditar depois
que eu te conheci foi em anjos. Um anjinho em especial na verdade. Até
cabelinho encaracolado feito de anjo cê tem.
Eu não sei se
você ainda não percebeu, mas Ivan eu te admiro muito! De verdade. Você é exatamente o retrato do que o Criolo
exalta nesse trecho:
“Os saraus tiveram que invadir os botecos
Pois biblioteca não era lugar de poesia
Biblioteca tinha que ter silêncio,
E uma gente que se acha assim muito sabida”
Eu te acho muito melhor do que qualquer pessoa metida a intelectual. Porque sei lá Ivan, você é o retrato mais fiel do ser humano de verdade que eu já conheci. A sua simplicidade, a sua honestidade, o seu amor mansinho e inocente, valem mais do que qualquer pessoa que tenha conseguido ler O Capital em seu cunho original sem sentir uma pontadazinha sequer de tédio. É como se você fosse a poesia do mundo. Aquela coisa simples, sem grandes rodeios, sem complicações, mas que tocam a gente. Aquilo que dá um tapa na nossa cara, e nos faz enxergar que a vida é muito mais do que a lista de livros que você leu, o número de filmes que você já viu, as bandas desconhecidas que você conhece, a quantidade de dinheiro que você tem no banco, o bairro em que você mora, a família da qual você vem, a marca que você usa, as drogas que você se vicia, as pessoas que você odeia. A vida é isso aí ó: um sopro. Bem poético, por favor. Ser humano é ter capacidade de perceber isso. E passar adiante, mesmo que seja visto como idiota. Cê é a poesia da minha vida. E tem coisa mais linda que ser a poesia de alguém? Tem coisa mais linda que ser o cais de alguém? Tem coisa mais linda que ser o tipo de pessoa na qual alguém se espelha? Oh se tem: coisa mais linda que isso tudo, é ser amada por alguém como você Ivan.
Sinceramente, eu não sei o que será do nosso futuro distante. Não sei se nossos projetos se concretizarão. Não sei se nossos planos não passarão de simples e inocentes devaneios adolescentes. Eu só sei, meu amor, que você me marcou. E isso não tem como ser mudado.
Jamais cansarei de ser grata a ti. Cê me pegou numa fase muito complicada da minha vida e me trouxe de volta a luz. Tudo que tiver ao meu alcance, eu farei por você. Porque eu, do meu jeito bobinho, desastrado, desengonçado, envergonhado, tosco; eu, ah, eu te amo. Muito. E a estrela que eu apelidei com teu nome continua por aí, na imensidão do céu. Até que a sua morte nos separe.
E sobre o que te falei a respeito de marcar, fica aí uma poesia pra adoçar:
Tatuagem
Chico Buarque
Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem...
E também pra me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava...
Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem...
E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha
Farta, morta de cansaço...
Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem...
Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva...
Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes..